Article published in Portugal’s “Público” newspaper

O Captain! My Captain!

A qualidade da relação estabelecida entre professores e educadores e os seus alunos é central para a “construção” de pessoas competentes, qualificadas e eticamente envolvidas com a comunidade.

Lurdes Veríssimo e Pedro Dias
15 de Setembro de 2023, 14:32

Cena do filme Clube dos Poetas Mortos (1989), com Robin Williams DR

Nesta semana, milhares de crianças e adolescentes ficarão a saber mais acerca do que os espera no regresso às aulas deste ano letivo — horários, professores, turmas, colegas, matérias…

Quem não tem memórias da escola? Daquela expectativa de saber como será, da preparação do material escolar e dos livros? Do reencontro com os amigos, com os professores e com paredes que contam histórias? Todos guardamos memórias desta fase, umas são doces, outras agridoces, outras ácidas.

Se analisarmos onde e com quem as crianças e os jovens passam mais tempo, rapidamente percebemos que a maior parte do tempo é, de forma geral, passado na escola com professores e colegas. E por isso, tal como escrevia Thomas Achenbach, investigador na área do desenvolvimento na infância e na adolescência, a escola assume-se como uma “arena desenvolvimental”, em que tudo acontece: onde se aprende e se ensina; onde as crianças se relacionam consigo, com pares, com adultos; onde as crianças se sentem (in)competentes; onde se vão definindo enquanto indivíduos, onde experimentam o (in) sucesso, e até onde têm algumas das experiências mais marcantes do seu percurso académico e de relacionamento.

Nesta altura do regresso à escola, muitos pais ficam aliviados e descansados com o regresso às rotinas. Tal só acontece quando confiam nas escolas e na qualidade das relações que os seus filhos lá estabelecem. E é preciso pensar nisto com muita seriedade, em particular nas situações em que as crianças e jovens não encontram nas famílias um espaço “seguro” de desenvolvimento. E desenganem-se os românticos! Muitas famílias, por razões diversas, quase sempre multideterminadas, não podem, não sabem, não conseguem, não são um espaço “emocionalmente seguro” para os seus filhos!

De acordo com a Teoria da Vinculação — que nos ajuda a compreender a forma como nos ligamos afetiva e emocionalmente com pessoas de referência, como os pais —, a falta destas condições de segurança afetiva constitui-se como um fator de risco para que diversos problemas de desenvolvimento psicológico possam surgir, inclusivamente ao nível da realização académica e do percurso escolar e profissional.

Por outro lado, e nesta mesma lógica de ligação afetiva e emocional, surge a possibilidade de que relações sociais estabelecidas fora do contexto familiar, nomeadamente com outros adultos de referência — como é o caso dos professores — se constituam como fontes de segurança e suporte. Assim, não é de todo errado pensar que os professores são, sem sombra de dúvida, figuras que podem ter um impacto, muitas vezes determinante, na forma como as crianças e jovens se desenvolvem a todos os níveis.

Em janeiro de 2023, Carmen Garcia escrevia que “Os professores são os pedreiros do mundo (…) A escola são pessoas que ajudam a construir outras pessoas.” São mesmo! Não podíamos concordar mais com esta frase, pois a qualidade da relação estabelecida entre professores e educadores e os seus alunos é central para a “construção” de pessoas competentes, qualificadas e eticamente envolvidas com a comunidade.

Não é só a comunidade em geral que reconhece este facto. Também a investigação científica nos tem indicado, de forma muito clara e em estudos que incluem milhares de crianças e jovens, que a qualidade das relações estabelecidas entre professores e alunos e o envolvimento e a realização académica dos estudantes estão intrinsecamente relacionados.

É então fundamental agir, no sentido de prevenir, de fortalecer e, acima de tudo, de antecipar problemas. Pode-se tomar como exemplo o facto de que o investimento económico em práticas de promoção de saúde mental na escola, a par da prevenção de problemas de saúde mental e de insucesso escolar serão sempre uma aposta ganha. A promoção de saúde mental em contexto escolar tem de ser cada vez mais uma realidade efetiva. E as orientações científicas internacionais vão cada vez mais nesse sentido!

Já em 2015, a OCDE defendia a importância das competências socioemocionais como forma de potenciar um desenvolvimento global individual mais positivo, o que se poderá traduzir, a longo prazo, em indivíduos mais saudáveis e interventivos na comunidade.

O projeto Let’s Care, financiado pelo programa Horizon Europe, integra, em Portugal, uma equipa de investigadores do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH) da Universidade Católica Portuguesa no Porto. Este projeto ambiciona contribuir, não só para uma maior literacia quanto às questões de promoção de condições para que as escolas sejam contextos marcados pela segurança afetiva, mas também para identificar um conjunto de medidas que potenciem a realização académica, com o fim último de reduzir o abandono escolar precoce.

Neste projeto, assente em práticas de investigação participativas, um conjunto de estabelecimentos de ensino já se associou a uma comunidade de escolas que, em seis países europeus, colaboram na reflexão sobre o que as escolas já fazem e sobre como poderão melhorar as suas práticas no sentido de mais eficazmente funcionarem como um contexto que acolhe, apoia e promove o desenvolvimento das crianças e jovens, independentemente do seu percurso anterior. Para que estes objetivos sejam alcançados, precisamos dos nossos “pedreiros”! Precisamos nos nossos professores! Precisamos de afirmar as escolas como espaços emocionalmente seguros!

Retomando o título deste texto — “O Captain! My Captain!​”, célebre expressão retirada de um poema de Walt Whitman e utilizada no magistral filme O Clube dos Poetas Mortos, demonstrando o reconhecimento de um grupo de jovens relativamente a um professor único, que com eles desenvolveu uma relação de segurança —, precisamos dos profissionais que diariamente se empenhem em acolher, apoiar e promover o desenvolvimento das nossas crianças e jovens nas escolas. E, enquanto comunidade, precisamos de agir com estes “pedreiros de pessoas”, de forma articulada e de mútuo apoio, reconhecendo-os, valorizando-os e apoiando o seu trabalho.

Quando muito se discute e escreve sobre as condições profissionais dos professores em Portugal — remunerações, carreira, colocações, etc. —, estamos efetivamente a discutir um assunto de base, porque estamos a falar das condições justas para que este conjunto de profissionais de importância incontestável possa desenvolver um trabalho que é complexo, amplo e que determinará a sociedade que teremos no futuro.

Importa, pois, ao iniciar um novo ano letivo, celebrar e reconhecer o valor dos professores!

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